"Boa tarde, dona Cláudia, como tem passado?" A pergunta pretendia dar início a um diálogo sobre o estado de saúde de uma paciente de 95 anos, que conheço desde a minha adolescência e que me chama pelo diminutivo desde então.
"Vou bem, Wilsinho. Melhorei um pouco desde a última consulta. Os novos medicamentos diminuíram o inchaço das pernas e aliviaram as tonturas, mas..." Suspirou e, em tom discretamente contrariado, confessou: "Ainda não fiquei completamente boa!" Consegui disfarçar minha surpresa e arrisquei: "O que está faltando?" "Tudo, ué", respondeu indignada. "Não faço mais nada como antigamente: não dirijo mais; preciso de apoio para andar na rua; tenho que anotar o que comprar..." E assim discorreu sobre situações incômodas que, mesmo associadas, não constituem impedimento para uma vida ativa.
Dona Cláudia freqüenta uma academia de ginástica três vezes por semana, visita os familiares e as amigas, decide tudo o que acontece consigo e em sua casa e opina nas principais decisões da família. Achei interessante conversar sobre essa aparente dissonância entre as suas expectativas e a realidade. Falei que, apesar do aumento da expectativa de vida nas ultimas décadas, menos de 1% dos brasileiros atingem a idade dela e uma ínfima minoria chega com sua lucidez. Calmamente, dona Cláudia esperou que eu terminasse a preleção e acrescentou: "Sei de tudo isso, pois leio jornais e revistas e estou atenta a tudo o que acontece ao meu redor, mas isso não me impede de ter saudades daquilo que eu gostava de fazer e não posso mais". Para disfarçar minha falta de contra-argumentos, iniciei o exame clínico.
Continuamos a conversar sobre as diferenças entre antes e agora. Ela ressaltando a magnitude da sua independência prévia e eu valorizando sua funcionalidade atual. Seria um diálogo infindável se, ao olhar para o relógio, ela não tivesse se espantado: "Já? Deixe-me ir, pois marquei hora com minha manicure e não quero fazê-la esperar". Guardou cuidadosamente suas receitas e seus pedidos de exames, procurou a bengala, levantou-se sozinha e aguardou meu abraço junto à porta. Lá fora, esperava-a sua cuidadora, que me perguntou: "E aí, doutor, dona Cláudia não está ótima?" Mesmo sem ouvir a resposta, acrescentou: "Digo isso a ela todos os dias, mas ela não acredita!" Com um sorriso discreto, minha paciente deu um olhar ao redor mirando todos os que estavam na sala e disparou: "Não tenham pressa, vocês chegarão aonde eu estou". Gentilmente, dispensou o braço da acompanhante e se despediu de todos. Deixando-me por último, fixou o olhar e dirigiu o seu derradeiro comentário: "Vamos ver se desta vez eu volto a ser o que era". Acompanhei-a com o olhar até que saísse, pedi alguns minutos de licença ao próximo paciente e tentei refletir sobre seus argumentos. Em verdade, dona Cláudia sabe que nunca voltará a ser como antes, mas se autoriza a desejar sê-lo. Em parte para relembrar que já foi mais capaz do que é hoje, mas, principalmente, para reafirmar que é possível viver bem querendo viver melhor em todas as fases da vida.
Wilson Jacob Filho, professor da FMUSP e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas.
É o autor de "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" (ed. Atheneu)
wiljac@usp.br
Wilson escreve a cada 21 dias (5as feiras) na Folha de S.Paulo, no suplemento Equilíbrio.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Antes e hoje, por Wilson Jacob Filho
elaborado por Moco às 4:40 PM
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